domingo, 22 de fevereiro de 2015

Astronauta

O dia que me mudei para Marte não foi estranho. Parecia que havia vivido naquele lugar fazia anos. Lembro-me da sensação que veio-rápida, intransigente e seca-, de um torpor que podia ser sentido na ponta dos meus dedos. Toquei na superfície do planeta e percebi, anonimamente, que já não era mais ninguém. Foi uma energia, ao invés de um planeta que sugeriu-me que havia tudo acabado. Não agora. Nem neste exato instante. Em um longo tempo atrás, antes mesmo dos dinossauros, algo veio e demoliu cada partícula, uma explosão que já continha passado, presente e futuro, o dia em que eu fui para Marte, foi o dia mais feliz da minha vida.

Relato de autor desconhecido
            
O termo memória nasce, pronto, como um fracasso, ela faz parte da noção que algum dia já fomos capazes de imobilizar um momento. Marco Aurélio disse que atentar contra o passado era uma piada, não havia ninguém para escutar sua brincadeira.

O homem pensava nisso, enquanto esticava seus dedos em direção ao controle remoto. Havia uma bela mulher em cima do seu corpo, em um movimento, descontrolado, e um pouco rápido demais para o seu gosto. Seu corpo inteiro parecia tremer de desconhecimento. No ar do seu apartamento configurou-se uma queda com a memória. Seu apartamento era fundado sob uma frase em grego na porta, o tempo já não existe, e foi assim que ele criou uma vida.

Rotinas são monstros. Eles têm rostos, braços e pernas, conseguem chegar até mesmo nos seus olhos. Cada minuto do seu dia era contado, seu planejamento poderia ser tido como a busca da perfeição. Toda a história da humanidade é baseada na busca do perfeito, mesmo que se saiba, há tempo demais, que nasce-se do puro e completo caos. Criam-se deuses, mitos e religiões para se esquecer esse pequeno detalhe, nasce-se com um prazo de expiração.
           
Bons padres nunca conseguem o que querem. Existe um homem chamado Augusto. Ele rezou para ter uma resposta para suas crises espirituais. Num determinado momento, aprendeu que ele era salvo pela sua fé. Não havia pensamento capaz de salvar. Nenhum resquício humanista, somente uma sensação de plenitude. Trezentos anos de guerra foram baseados nessa ideia- de que a salvação pessoal é a única saída para a felicidade. Por outro lado, um alemão levantou os braços e disse que todos com tal ideia deveriam ser mortos, mesmo que tais palavras tenham sido imaginadas na sua própria mente.
            
Voltando para o apartamento, agora, sinto que pode-se expressar melhor o acontecido. O tempo queria voltar a ser normal, passar as horas, minutos e segundos. No entanto, o feitiço não poderia ser quebrado, aquela placa na porta era um mau agouro. Quando ele havia nascido, ele tinha pedido que pudesse controlar seu tempo de vida. Escutou com calma o aviso do senhor do tempo, homens que controlam seu tempo, morrem antes do seu fim. Mesmo assim, ele disse, seguro, que havia entendido. Estou indo para marte.
            
Todos foram embora. As cortinas se fecham. Não existe barulho. Escuta-se um ressoar calmo no assoalho, mas, mesmo assim, não se dá credito ao som retirado do chão. Por alguns segundos, alguém pensa ter escutado um ruído vindo do apartamento, mas eles, com certeza, não conseguiam mais entender. No momento em que o tempo havia parado houve uma cisão, radical, entre o que havia dentro do apartamento e o mundo afora. Houve uma quebra, irrecuperável, de imaginações. Foi sob esse sinal que uma bela profeta disse, certa vez, que deve-se fazer as pazes com seu passado, ou, viver em um tempo, cindido, entre seu espaço e o resto do mundo. Foi isso que eu pensei, quando encontrei o relato de marte. Eu e o astronauta éramos as mesmas pessoas, por isso, consegui sentir, quando a nave quebrou, e ele não pode mais voltar. Estive junto, durante a quebra do ar, o som do silêncio e o pânico completo. Estive lá, até o final, em Marte, e foi o dia mais feliz da minha vida.
           



quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Na trama do casamento

Ela sabia que aquele dia decidiria o resto da sua vida, mas, mesmo assim, desejou que nenhum pensamento assolasse sua mente durante sua caminhada. Pessoas estavam se aglomerando aos lados, e belas flores, rosas, espalhavam-se pelas bancadas. Não sabia como diabos tantas pessoas haviam surgido naquela festa, deveria ter sido ideia do seu noivo, possível marido, querendo animá-la.

Ela estava nervosa, não entendia a utilidade daquele festival de símbolos. Ela repetiu, pelo menos umas dez vezes, que a forma com que a noiva se vestia de branco era uma velha tradição machista que buscava pureza, virgindade e gentileza. Ela, no entanto, vestia azul, como para que afirmar que, de jeito nenhum, havia cedido toda sua personalidade para aquele ritual. Seus olhos, porém, entregavam sua preocupação.
           
Voltando um pouco atrás, ela tinha dezoito anos, quando tudo começou. Eles se conheceram no meio da uma escadaria, e seria impossível determinar qual foi a característica definitiva que lhe atraiu: os grandes olhos negros, o descaso com a roupa, ou mesmo, a falta de jeito.

Depois de dez anos, passaram a viver juntos; algumas traições no meio; mudanças temporárias para o exterior tentando pacificar o espirito; um acidente de carro; ainda se mantinham juntos. Ela não acreditou quando seus pais lhe obrigaram a casar: uma moça de bem não deveria viver sobre o mesmo teto de um homem sem casamento, era um absurdo, pensariam que ela não tinha nascido numa família católica.
           
Sua família não tinha peso na sua vida desde o dia que ela se fez independente. Foi um grito surdo, em plena Ipiranga, que lhe havia permitido tal liberdade. Seu noivo, marido, companheiro- rótulo qualquer ainda não identificado- tinha ficado gravemente doente. A única forma da cobertura total de plano de saúde era o casamento. Ela se sentia desesperada por ter de ceder. Olhando nos grandes olhos doentes dele, ela prestava-se ao ritual. A ideia da igreja tinha sido dos pais dos ambos e já haviam perguntas de quando filhos viriam.

            
Ela não acreditava que ele havia deixado tudo aquilo acontecer. Eles não deveriam casar. Não deveriam ter filhos. A ideia de morar separados ainda atraia ambos, no entanto, a proximidade na cama no final do dia acabava por acalmar seus ânimos. Enquanto se encaminhava pelo altar, ela pensou algumas vezes sobre seu destino e andou para trás. Chegando fora da Igreja, ele estava fumando um cigarro, despretensioso, como se não pertencesse naquele ambiente. Foi por isso que eles sorriram. Não precisavam dizer mais nada. Ela foi a primeira a correr. Baixa, coordenada, herdando os valores atléticos da sua juventude, ficou à frente. Ele, entretanto, correu disparado, sem nem ao menos olhar para a sua família. Foi assim que eles fugiram do casamento, e eu fiquei assistindo, rindo, sem saber direito se eles estavam certos ou se a família, gritando, tinha razão.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

A triste e curta vida de Ernesto

Ernesto levanta cedo, e percebe, curiosamente, os pássaros voando ao seu redor. Começa a se sentir tonto, faz anos que ele percebe que viver de cigarro, café e cerveja não vão mantê-lo vivo por muito tempo, mas ele tem feito a pergunta, importante, se ele, realmente, quer se manter vivo.

Duas possíveis respostas:
1)      Sim
2)      Não

Ele não consegue pensar no não. Ele era católico, afinal de contas. Ainda rezava para um Deus que não acreditava. Por isso a pergunta tinha que ser sim, mas não gostava daquela afirmativa-seca, redonda e certa- de um sim, sem nenhuma reflexão.

Levantou-se, em plena segunda, com um calor assolando seu corpo. Foi-se espalhando pelas suas extremidades, a roupa social colada no corpo, enquanto sentava numa praça. Percebia que era um ataque de pânico. Queria gritar, mas sua garganta estava seca, poderia ter pedido ajuda, mas não conseguia se expressar, ou mesmo, não queria se expressar. Ernesto tinha decidido há muito tempo atrás que era difícil conviver com outras pessoas, por isso acabou criando um lugar silencioso na sua mente. Ele conseguia ausentar-se das relações do cotidiano. Exercia um certo controle mental, romano, na sua mente. No trabalho, ninguém percebia o que ia além do simplório sorriso e, sinceramente, poucos teriam se dado ao trabalho de observá-lo.

Eu, no entanto, tive que fugir da regra. Lembro dos olhos secos virados para o computador. Os tiques nervosos de sua perna ao roçar com a mesa, e seu grito, desesperado, preso nas suas esperanças mortas. Lembro-me, especialmente, do seu cabelo caindo aos poucos, das suas mãos tremulas e de um charme, um pouco caótico, o charme dos homens perdidos, mortos aos poucos pela loucura, o charme dos que estão perto de morrer. O café escorria na sua mão, enquanto o cigarro acabava rapidamente. Tinha algo de extremamente poético na forma em que ele se esforçava em fazer, absolutamente, tudo. Ele poderia ser o empregado perfeito, caso você não fosse longe o suficiente.

O dia que tive que ajuda-lo, seu corpo estava em convulsão. Ele tentava falar, mas sua mente havia se ausentado. Não haviam fotos no seu escritório, por isso imaginei que ele não tinha uma família. Descobri depois que todos seus parentes haviam morrido e ele era filho único. Tinha uma coleção de fotos, na sua casa, de pessoas viradas de costas para a câmara, parecia um projeto poético. A fuga da câmera, como uma possível fuga, de toda a observação do mundo exterior. Um projeto de fotografia sobre os homens e mulheres que fugiam todos os dias do seu cotidiano. Imaginei, enquanto ele caia morto na minha frente, que ele havia passado a sua doença para mim, como se este tipo de loucura fosse contagioso, e pudesse se espalhar dizimando cidades inteiras.

Estou, aqui, escrevendo meu breve relato, enquanto meu corpo começa a tremer e sei, sem nenhuma dúvida, que estou prestes a ir embora, na minha cabeceira, vocês vão encontrar uma caixa cheia de fotos, fiz meu melhor, para terminar seu projeto.


Hoje, acordei, e o céu estava cheio de pássaros. A camiseta social, colada ao corpo, me fez suar. Não consegui olhar bem o céu, antes de cair, mas abracei, ao longo do meu peito, esta pequena carta, espero que ela possa te salvar. Espero que, em algum lugar, nem que seja num sonho, possamos compartilhar nossas dores, e sermos entendidos, já sei que isso não é possível, mas a utopia é um lugar vazio e nós temos que, futuramente, passarmos a ocupa-la. Com os nossos silêncios, nossos projetos, nossos amores fracassados, mas, também, com os poucos sucessos que contrabalançam o compasso dos nos corpos, em convulsão, atrás de um dia, melhor.

domingo, 9 de novembro de 2014

Devolvida ao remetente

Devo começar esta nota por um lembrete, ou melhor, uma tentativa de recapitular certas coisas que foram ditas. Toda pessoa no momento em que emite uma palavra, arrepende-se, automaticamente, do seu erro, pois é impossível roubá-la de volta. A escrita, infelizmente, faz isso duas vezes, e perpetua, por meio do tempo, este pobre erro. Não é sem acerto que Platão quis expulsar todos os malditos poetas da sua cidade perfeita, afinal, eles acabariam dando muito trabalho ao rei filósofo que já não queria explicar muito bem suas razões. Ás vezes, a literatura é uma forma de explicar suas razões. Não sempre.
            
Deveria começar com um pedido de desculpas. Sempre odiei voltar atrás. Qualquer passado para aquele que deseja o progresso deve ser eliminado, trucidado e esquadrinhado numa pequena cela, onde o sol não bate, e a comida é rara. Lembro-me do seu rosto, quando disse que estávamos terminados. Em minha defesa, mal entendia o conceito de tempo e o que ele era capaz de fazer com a nossa mente. Essa é uma nota de desculpas, que nunca vai ser entregue. Imagine as milhões de cartas presas no correio, sem remetente, perdidas em algum lugar num infinito de desorganização. Imagine minha carta, como um ponto minúsculo numa rede, inesgotável, de leveza.
            
Pessoas jovens pensam todo o tipo de absurdo. Confrontado com a morte, poucas pessoas saem com a sua cabeça inteira, ou, para ser otimista, saem com qualquer possibilidade de normalidade. Desde pequeno, pareceu-me estranho todo aquele ambiente, esterilizado, em que ninguém poderia conversar. Não haviam companhias. Não haviam ligações ou cartões. Ambiente branco e completamente vazio. Minha mente se organizou assim e, por sinal, ainda se permanece deste jeito.
            
Talvez, eu possa dizer a frase que mais me lembra do seu rosto. Você é uma pessoa tão estranha que chega a ser engraçado. Gosto do som da sua voz falando essa frase e a forma, despretensiosa, em que você parece entender onde estou chegando. Você estava bem vestida, bebendo, ignorando a existência alheia. Eu apareci como um sopro de vida, completamente, ignorante que seu corpo havia bebido das dores do tempo. Permite-me a total ignorância, um pecado capital, combatido pelo enforcamento no meu futuro tribunal constitucional da loucura.

Sejamos aqui sinceros, você me enforcou nesse lugar há muito tempo atrás, e trancou uma porta, que eu, sempre, espiei, esperando um pequeno feixe de luz em que eu pudesse me encaixar. Se isto soa excessivamente absurdo, gosto do som dessas palavras, do seu rosto dizendo absurdo, como se minha existência, do começo ao fim, tenha sido um erro. Posso gostar de tudo isso.

Com o passar do tempo, o rancor te domina ou te abandona. Graças a algum força cujo nome desconheço, mas recuso Deus, por princípio, o rancor me abandonou. Veja bem, eu ainda beijaria você na praia, e trocaria o tempo perdido no teclado da minha velha máquina de escrever, juro, por tudo que é de mais forte nessa vida, que eu voltaria no tempo, e reescreveria todas as baboseiras que cometi. Provavelmente, depois disso, cometeria muitas outras, mas não daquele jeito, não daquela forma, não sem preocupação. Ser jovem é acreditar que tudo pode começar de novo, e isso perdeu-se no tempo. Já não imagino que voltarei a te ver, nem que essas palavras possam te atingir, mas, ainda assim, livrado do rancor, o que resta é um poeta expulso da república do Platão.

Peço com grande pesar que perdoe os dias que não soube te alegrar. Que entenda os dias que eu fugi, doente, em direção ao hospital. Entenda porque eu disse que você não poderia ir na porta, recusei a sugestão médica de que você poderia ajudar. Você não poderia imaginar pelo o que eu estava passando, se não aquele castelo, assustador, de ilusões sobre nosso amor poderia morrer, e eu não poderia permitir com que isso acontecesse, eu me negava, terminantemente.

Nosso amor, na minha cabeça, deveria ser um emaranhado de boas memórias, onde não haveria espaço para tristezas excessivas ou sons energéticos. Construiríamos um belo mundo em que o tempo não haveria de passar, em que as marcas das nossas rugas, pudessem se desenvolver sem apreço pelo mundo ao redor. Depois da sua partida, eu fiz questão de montar o nosso apartamento dos sonhos, sozinho, como se fosse a continuidade de um sonho pela metade, ainda, sempre, a ser completo, mas numa esperança, ingrata, de que as linhas que percorrem nossos corpos viriam a se encontrar.

Comecei a contar uma história. Não sempre. Comecei contando uma pequena mentira, que nunca havíamos terminado. Aos poucos, passei a desenvolver a história com mais precisão, eu esperava minha namorada que se mudaria de outro lugar, com o passar dos dias, levei a sério minha posição. Coloquei um apartamento à espera. Tentei explicar a todos. No final, mentia sobre um término, mas que era uma pausa e não um fim, porque já não existiam pontos finais, apenas virgulas, ou dois pontos, qualquer expressão que me deixasse um segundo mais perto de você.


Carta devolvida ao remetente, 1998.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Espelho

O corpo fechou, lentamente, sobre si mesmo.  Primeiro, não conseguia mais comer, ou dormir. Tudo que ele colocava à boca, voltava em forma de vômito. Era simples, tecnicamente, o que estava acontecendo, seu corpo, assim como sua mente, havia sido destruído. O quarto parecia ter congelado no tempo, nada era limpo, e os gatos pareciam miar, constantemente, contra sua paz. Não havia deixado entrar luz na sua casa fazia semanas. O ar era denso e parecia carregar uma história sobre seu passado, o cheiro não parecia ligado à vida, mas sim a um reino, totalmente, desconhecido.
            
Havia pensado que todos seus heróis tinham se suicidado, no entanto, ele não gostava da pressa desta decisão. Ele preferia algo devagar, que não dependesse da sua decisão consciente. O psiquiatra havia dito que nunca tinha visto aquilo acontecer, ele tinha perdido muito peso, tinha um quadro clinico desesperador, mas sem nenhuma doença aparente. Ele respirava, fundo, enquanto meditava sobre seu destino. Ele havia ouvido falar sobre monges que recusavam seu próprio corpo até o total silêncio da sua vida. Parecia bonito, não haver uma violência contra Deus ou o destino, havia uma pacifica resignação. Santo Agostinho estava certo, ao determinar, que o homem era arrogante demais em querer decidir sobre sua vida, ou mesmo, querer mudar seu destino, a queda da Roma foi a ruina do egoísmo, a queda do homem foi o fracasso do seu reino.
            
Ele olhou a si mesmo no espelho, e ficou espantado, seus olhos estavam fundos-seu crânio inteiro aparecia nos contornos do rosto. Ele não conseguia mais reconhecer seus olhos, ele havia se transformado em outra pessoa. Seus ossos pareciam quebradiços, e sua boca tinha sinais de desgastes e, resquícios, de sangue.  Seus familiares e amigos poderiam passar por ele, no meio da rua, sem nem ao menos notar sua presença, de certa forma, era isso que ele estava procurando, um tipo de invisibilidade, um desaparecer, lento, sobre sua própria sombra.

            
O fim não havia de tardar, mas, mesmo assim, o tempo havia perdido seu significado—não havia mais pressa, este era um atributo daqueles que viviam, e, obviamente, havia várias formas de morrer, em diversos sentidos, seu corpo havia desistido. Seus dedos foram os primeiros a perder a sensibilidade, e seu braço seguiu entorpecido. Ele sorriu, principalmente, quando não conseguia mais falar, agora, ele estava impedido de se comunicar, seu pedido era que não o incomodassem, suas portas foram fechadas, e seu apartamento continuou inerte, como se ele tivesse direito a seu próprio velório, antes mesmo do tempo. Foi assim que eu imaginei sua vida, antes de abrir a porta do apartamento, e foi, desta forma, que vim a conhecer o homem olhava no espelho.

domingo, 24 de agosto de 2014

Autor

Há muito tempo, um homem sobreviveu a guerra, ou, poderíamos dizer que a guerra sobreviveu nele. As primeiras páginas que vieram à sua mente foram as bombas explodindo, a França pegando fogo. O sonho de todo soldado em acertar Hitler na cabeça. Thomas passou anos escrevendo o mesmo livro, acreditava, piamente, que a repetição pudesse salvar sua sanidade. Lia o rótulo dos produtos no seu banheiro, escrevia no romance. Quando a fama veio, ele não conseguiu entender, como possivelmente o mundo inteiro havia podido amar suas bizarrices. Lógico, ele, rapidamente, aprendeu que o mundo havia tirado dele o que queria, sem nem se importar com o que ele quis. Quando ele escrevia, repetia a si mesmo uma pequena prece sobre quem ela era, havia um pedido desculpas pela confusão, ele desejava abrir uma porta que há muito tempo havia fechado.
            
David respirava fundo, mas sabia que não havia chance contra a depressão. O grande buraco com dentes havia tomado conta do seu corpo: devagar, ele não se movia; sem respirar, ele continha uma tristeza; não conseguia fazer sexo; não conseguia levantar da cama; David só foi o forte o suficiente para pegar o romance que estava na estante, seu autor nunca havia sido encontrado. Ele namorou, tempo o suficiente, a ideia de um autor que nunca fosse descoberto, um homem escondido, na frente de todos, e que pudesse, inocentemente, tirar a fonte de todo o barulho da sua cabeça. Foi isso que ele imaginou quando pegou o romance pela primeira vez. A segunda vez, foi uma repetição banal. Na terceira vez, ele se sentia um pouco melhor. Até a décima, ele já conseguia levantar da cama, fazer algumas flexões e se mover.
            
O psiquiatra sorriu. A menina, namorada de David, repetiu algumas palavras ininteligíveis: Sabe, doutor, eu tenho um problema, talvez, dois problemas, lembro que espero alguém que me abandonou, parece que estou na frente de uma grande porta, cinza, esperando o dia que ele volte, de algum esconderijo sobre a terra, reclamando que nunca gostou sol, mas sentiu falta da minha presença, eu levantava e explicava que sempre amei os homens que nunca voltavam, mas ele havia voltado, por isso, finalmente, quebraríamos o ciclo repetitivo, era isso que eu queria dizer, por favor, entenda, amamos aquilo que está ausente, mas sabemos, intuitivamente, que felicidade só está aqui na frente, cega, sem dizer muito, prestes a se expressar.
            
Thomas lamentou a morte de David, ele tinha a sensação de que ele era um filho que nunca havia conhecido. Se ao menos o destino fosse mágico o suficiente, eles poderiam ter conversado num café, pequeno, e fumado um pouco, depois da conversa, em que ambos chegavam à um mutuo acordo: vamos destruir sistema, uma vez em silêncio, a outra por literatura, não vamos nos suicidar, mas vamos matar àqueles que pensam que estamos acabados, podemos escrever uma obra em conjunto, mudar nossos nomes, fugir para uma ilha deserta, David, nós podemos viver.

            
Não foi assim, no entanto, que a história aconteceu. Em algum lugar, pouco distante do café, um homem chutava um banco. Tudo aconteceu rápido demais, o ar foi puxado, sem respeito, a morte sempre é assustadora, Thomas podia ter lhe ensinado isso, na guerra, não haviam mortes heroicas, todas as mortes eram nojentas, tiravam a possibilidade daquilo que poderia se estender, indefinidamente, no tempo. O choro, da sua namorada, foi gradual, crescendo em proporções assustadoras. No dia seguinte, alguém no jornal diria que gênios tem que morrer, para que nos lembremos dos nossos pecados, mas não era isso que David queria dizer, se alguma palavra ressoava sobre sua boca, era uma simples prece de que a gente parasse de acreditar em tudo, de levar tão à sério as coisas que, realmente, não importam.

domingo, 29 de junho de 2014

Separações.

            
Conseguia escutar o som, ou melhor, a falta dele. Era como se a solidão invadisse cada metro quadrado, livros jogados ao acaso, fora da ordem, gritos surdos, vidas perdidas. O silêncio é uma forma que encontramos de fugir de quem nós somos. O barulho, a confusão e a baderna definem nossos sistemas sociais. Vivemos num mundo em quem fala mais alto, é escutado. Existe uma revolução no meu tipo de silêncio, ele é uma prece contra o barulho. Todo grito é uma forma de não querer morrer. Eu estava sentado, vendo uma flor morrer, aos poucos, quando ele me perguntou o que havia acontecido.
            
Sempre comece um novo parágrafo, explicando algo novo, disse meu professor de escrita. Entretenha o leitor com algo fácil, talvez um fato chocante. Ela estava sorrindo, ou, era assim que ele gostaria de imaginar. Se sua fuga havia sido inteligente, eu nunca haveria de saber. Ela colocou algumas roupas na mala, retirou a maquiagem da bancada e desfez os votos que fizemos sem saber. Que o dia era cansativo. Que o amor também acaba e, ocasionalmente, ele evapora. A água do chá se decompõe assim como os gritos que ela solta, evadindo suas cordas vocais, silenciosamente, e eu já espero não poder mais escutar.
            
Depois de tirar sua mala, e colocar suas duas camisetas, alguns livros e poucas lembranças que guardava, ela foi embora. Sem dizer nada, com o vento levantando seu vestido, de uma forma cruel, para um homem que gostaria de ter guardado uma imagem, que fosse, ao menos, um instante. Mas ele não poderia se dar ao luxo, de desejar algo, tão besta, tão ilusório, que fosse retirar sua sanidade. Somos todos bonecos de palha jogados ao fogo. Era isso que eu pensei.
            
O silêncio veio aos poucos, não veio de uma vez. Imagino que parei de escutar, por costume, ou, trauma. Não sei ao certo. Um dia, eu já não conseguia ouvir o miado do meu gato e, no outro, eu já não conseguia ouvir minha própria voz. Assim como toda sina, eu não liguei no começo. Todo herói grego ignora seu destino no primeiro momento. No dia que ele descobre, finalmente, sua inevitabilidade, ele desiste. Não é de uma vez. Ele nem para de escutar com uma singela decisão. Os acontecimentos que importam na nossa vida duram um momento, não mais que isso. Eles não se demoram, porque tem vergonha dos efeitos que fazem sobre nossos olhos. De uma vez, eu não conseguia mais escutar.
            
Eu acordei cedo e fiz o café. Não quis pensar no que tinha acontecido. Desejei que ninguém viesse a minha casa. Disse, a todos, que estava de greve. Empilhei as tarefas que havia adiado fazia anos. Disse a mim mesmo que todo começo é um tipo de piada, daquelas que não rimos, nem ao menos nos damos ao trabalho de sorrir. Se Deus existisse, ele, com certeza, seria um piadista, alguém que sabe se divertir. Imagino-me sobre as asas de uma ordem que eu nunca quis abraçar. Visto um terno, mas sem muita convicção. Faço a barba, mas sem pensar sobre o que aquilo significa. Deixo os gatos miando, porque não consigo escutar, nem um som. Um barulho me acorda e desejo, finalmente, que seja o fim, mas sei, de novo, que a história nunca acaba. O filme não para na metade. O livro não desiste na última página. Somos seres, tristemente, insistentes. Citando um homem que teve mais do que desejava, na vida real, não existem ateus, todos acreditam em alguma coisa. Na vida real, não existem ateus, todos acreditam em alguma coisa. Na vida real, existem ateus, mas, todos, acreditam em alguma coisa. Na vida real, existe a mim, mas, ninguém, acredita em tudo.